16.10.06

Dias

(contos poéticos)

Eu vejo os dias
escorrendo entre os dedos
e me pergunto
neste trinta e cinco anos
porque nada Eu fiz?

Não trilhei a vida
e sim abocanhado por ela
os acontecimentos
foi me rodeando
como um redemoinho de ventos
transformando-se num tufão

De alma enegrecida
corpo esmorecido
e com as mazelas umedecidas
no azeite de oliva
trouxe-me a triste realidade
que a vida se esvai,
como um rio
que deságua no mar
pouco a pouco a cada dia
até não restar
nada, mais!

Trem

(poesia infantil)

Lá vai o trem
func! func!
chem, em! em!
andando na
linha
soltando
fumaça
fazendo
arruaça
levando
esperança
deixando
saudades
passando
estações
rumando
para o norte
mas como é
bom!
viajar de
trem
nunca viajou
então vem
também.

Circo

(poesia infantil)

Vem meninada
hoje é dia:
de ir ao circo
de dar gargalhada
de ver cambalhotas
de contar lorotas
de fazer palhaçada

De comer pipoca
de virar criança
de astiar a tenda
de gritar bem alto
de guardar as tristezas
de soltar balão

De colorir o mundo
de pular o muro
de distribuir alegria
de ouvir a banda
de fazer ciranda
de cantar a paz.

Destoia

(poesia romântica)

Rasguei o meu verbo
debulhei-me em palavras
cacarejei o meu canto
pulei a dança
bebi o vento
sorri o lamento

Me embriaguei de amor
esqueci o óbvio
anestesiei a dor
busquei a morte
amaldiçoei a sorte
estapiei a vida
distorci o certo

Explanei besteiras
denominei-me poeta
desrimei os versos
desencadeei ilusões
cremei a flor
retruquei ao vento

Dizimei os castelos
desenterrei a alma
apunhalei o tempo
quebrei as regras
me alimentei de vida.

Amor

(poesia romântica)

Retrato reverso
inverdade perfeita
ilusão sugestiva
insanidade adquirida

docilidade majestosa
incivilidade aflorada
desordem de pensamento
desamor

doação sem restrição
viver sem sentido
sucumbirá a dor

perdoar o imperdoável
matar
morrer.

África

(poesia social)

Mãe África
acolhe em suas
tetas magras
nas suas terras
áridas
aonde o Deus Sol
acolheu como morada

Homens negros
como a noite
a escuridão fragmentada
com os seus sorrisos
brancos que reluz

Aplaca todo sofrimento
incutido nos rostos
escaldados pelo Sol
aonde seus arcos
e suas flechas
não são párias
para o grande trovão
África
com seus
deuses, suas
crenças, berço
do candomblé.